“Vivemos num mundo onde não fazemos o que queremos fazer, mas sim o que a convenção humana convencionou. Somos obrigados a fazer o que o Estado manda. Vivemos num mundo onde, se não temos nada somos marginalizados, somos olhados com olhares desprezantes, somos olhados de soslaio. Vivemos num mundo que, se temos algo, sobretudo monetário, somos babados, bajulados, estereotipados e, mormente, idolatrados” ANDERSON COSTA
O tempo está em chamas, totalmente consumido pelo tedioso ornamento da onomatopeia em tique-taque, evaporando-se nas putrefatas matérias de milhares de cadáveres clandestinos, por aí à deriva de toda a substância, de todas as responsabilidades do desespero-fraqueza kierkegaardiano. Ainda há quem não veja o retumbar insolente de tudo que já foi ensinado, da ciência que se fez edificada. Mesmo quando não me convém, irei elucidar o que se deixa elucidar-se, irei chorar no meu próprio funeral, irei cuspir onde os olhos não alcançam, irei amarrar os ossos à fome mundial. Irei fazer tudo isso sem me ater a escapulários, a rosários, a procissões, a promessas. Se for pra cair, quedar-me-mei no cinza das minhas borradas pinturas, sem o belo arco-íris das demais vidas, sem a conta bancária que enseja as máscaras risonhas. Para alguns resta somente a reza, para outros a oração. Para mim resta a consolação de saber que há algo após meu findar, algo melhor que tudo isso, algo que não se move no respaldo estereótipo, algo que não chora por não ter que sorrir.
Que esse ano de 2011 não seja somente um ano em que todos dizem que irão mudar, mas que a mudança exista e se consubstancie. Alguns dizem: esse ano eu irei fazer isso e irei fazer aquilo. Alguns fazem, outros continuam na mesma redundância, e com isso, e com a soberania democrática, faz-nos caminhar de mãos dadas ao trivial, ao costumeiro e ao sofrimento.
Peço a você que quando estragares um prato de comida, ou reclamar um almoço que não é do seu desejo, peço, repito, que pensem nas criancinhas “vazias” que moram sob as belas suítes em palafitas, vazias de qualquer ambição, de qualquer ideologia, mas cheia de fome e muitas de revolta.
É um favor que peço a todos que desejam uma mudança nesse ano de 2011. Espero que o individualismo se deteriore dando ensejo à fraternidade. Espero que Deus, em detrimento do fanatismo ao dinheiro, se torne o centro de todas as pessoas.
Até quando reclamaremos às paredes? Até quando procuraremos alguém para atribuir-lhe a culpa por toda esta situação, ao invés de irmos à luta?
Até quando seremos o vaso sanitário do sistema bicameral federativo?
Até quando os “mandões” jogarão suas fedentinas fezes sobre as nossas cabeças, fazendo-nos engulhar?
Até quando? Quando iremos nos conscientizar e pararmos de apertar o cinto na barriga?
A mudança está em nossas mãos. É dia de luta. É ano de luta. Hoje e sempre! Mas como, se as quintas, sextas, sábados e domingos é dia de cerveja? Como? Com tanta comodidão não haverá mudança alguma, todavia sim o devido fincamento já existente, e assim tudo ficará como está. Amém. É isso?
Quereis que a penúria e a fome consolem nosso cotidiano em demasia?
Quereis matar a sede nas lágrimas infantis?
Quereis o ósculo da miséria como colibri na antemanhã?
Claro que ninguém quer isso! Eu, assim como você, penso somente no futuro e esqueço que a vida é o agora e que somente a luta há de aliviar muitas dores. Vivamos o agora, pois o amanhã pode inexistir. Um feliz ano novo. Um feliz 2011 para todos. Amo a todos e continuarei sendo um “fazedor de besteiras”. Sempre fazendo besteiras para beneficiar o meu próximo. Serei um eterno sonhador. Olharei sempre para o céu, para as estrelas, para o sol e os terei como exemplo de disciplina e grandiosidade. Olharei sempre para um mendigo e continuarei a chorar saudades da fraternidade. Olharei sempre para você e te quererei grande. Abraço a todos.
As crianças pedem o HABEAS CORPUS, o desagrilhoamento, o veredicto positivo e a viável e prometida carta de alforria. Elas sonham com a esperança de um dia serem soltas da prisão onde a fome é alastrante, queimando-as internamente o suco gástrico da infelicidade, marginalizando-as a educação peneirada. É de se imaginar a sensibilidade, a moral administrativa de um Deputado Federal que, ao invés de beneficiar a evolução educativa, moral e em todos os aspectos das crianças, compra uma lancha com o seu primeiro salário. É de se admirar a sensibilidade de uma prefeitura onde o pêndulo só pesa de um lado, ficando o outro à deriva do que vier. O salário mínimo, ou melhor, o salário ínfimo aumentou somente 35 reais. Talvez fosse melhor se o aumento fosse de quase 10 mil. Mas já houve o reajuste dos semideuses, tirando muito dinheiro que seria destinado à educação já desgastada, à saúde já enferma, à infra-estrutura afundada, às suítes-palafitas, aos esgotos em que nadamos. Admiro-me dos que conseguem tirar do salário ínfimo o oxigênio necessário à sobrevivência. O povo brasileiro é lutador, é estrategista, pois sabe como se virar com um grão de dinheiro, sabe encher o “bucho” com a farinha e a água, sabe admirar a discriminação de se comer um ovo com o arroz e o feijão, é resignado e não sonha com o Escargot num prato à hora do almoço, mas somente com escargot de uma vida melhor. Muita força ao povo. Que a honestidade em nós seja maior do que a pigmentação fétida de qualquer congresso.
Já sonhei demais, já quis ser rico, já quis almoçar numa imensa mesa de fartura com os meus irmãos mendigos, famintos, já quis ser político para acabar com a discriminação empregatícia, com o desprezo que se é dado a algumas profissões, com o olhar de desdém que se é voltado para uma determinada classe. Já quis viver somente para a leitura, já quis até ser poeta, já quis dá valor ao que não é mais valorizado, já quis ouvir Mozart enquanto outros ouviam um tal de arrocha. Já quis acordar tarde, sem preocupação de qualquer ofício. Já quis fazer reivindicações, já quis fazer a lei valer. Já quis aprender como o Charlie Chaplin aprendeu, lutar como lutou Martin Luther King, vencer como venceu Zumbi dos Palmares, fazer os fins justificar os meios como o fez Maquiavel, já quis ter um pouco da arrogância do Bonaparte, deixar de ouvir baboseiras e ficar surdo qual ficou Beethoven. Já quis largar de estudar, de decorar, de ter que me preocupar com a forma de ganhar dinheiro, já quis poder dá cem reais a um catador de lixo, destituir os poderosos do poder, destronar o Sarney, viver como o Chico Mendes, ganhar dinheiro como Bill Gates, profetizar como Jesus Cristo, aprender como um aluno comportado. Já quis e quero ainda muitas coisas. Mas, de chofre, o que quero é sonhar com dias melhores. Com menos famintos espalhados, com o fim da concentração de renda e, sobretudo, com o fim da segregação.
Na cidade onde moro há ruas como nas demais cidades dos demais países. Citar-lhos-ei algumas das ruas que por aqui persistem: uma delas, onde moro, nem rua é, mas a considero como tal. É a chamada Travessa do Portinho, cheia de mexericagem e de músicas de má qualidade, umas iguarias musicais tidas como arte, uns berros de proveniência interiorana e etc. As pessoas residentes nessa travessa foram exclusivamente selecionadas por um não sei o quê de sensibilidade malévola. Há desde cachaceiro à homoafetivo, todos agrupados na coluna vertebral da Travessa do Portinho-Centro. Há a Rua da Palma que se estende desde o consumir dos viciados até a nobreza puritana do bairro. Pode-se acreditar nisso? Tanta bipolaridade numa mesma rua? De um lado o povo, os camponeses. Do outro a nobreza feudal, os semideuses.
No fim desta mesma rua há ainda eflúvios de uma nova invasão holandesa, de uma nova saqueação à Bizantina Igreja do Desterro, sem contar que todos os residentes deste setor têm direito aos espólios do Marquês de Pombal, desde as nossas pigmentações à identidade cultural, sem falar das donas cicranas que se sentam às portas na expectativa de uma novidade, de uma maledicência.
Outra curiosa rua é a de Afonso Pena, resumida somente numa ladeira, desde o céu ao “inferninho”, lugar este de muitas extravagâncias, da concentração de bêbados cantores, de prostitutas assíduas, dos fregueses emancipados e das cachimbadas dos usuários. Imagine só a riqueza que possui tal rua? É algo que lembra os arredores de um Éden enxovalhado com os seus sisudos farofeiros da Ponta D’areia.
Uma curiosidade que sempre tive em relação à cidade onde moro, São Luís do Maranhão, que perdeu tal nomeação para a “Terra do Sarney”, é o porquê das nomeações de pessoas ainda vivas às ruas, praças, pontes, bairros, avenidas e etc. Parece-me, salvo engano, que tal viabilidade só poderia ocorrer após a morte do sujeito. Mas, falando como a juventude da internet, deixemos em OFF o ON da situação. Só não posso deixar em OFF é a natação praticada pelos sacos de lixo e ratazanas lá pelo lado do Mercado Central quando há qualquer evidência de forte chuva, todos ficando ilhados, todos ficando mal-amados, com uma bela vista em cor marrom de uma água empoeirada, metaforicamente. Mas toda essa água imunda não se confunde ao cheirinho de peixe intrínseco à parada de ônibus contígua ao Mercado do Peixe. E esse cheirinho de peixe é algo que não pode acabar, nem mesmo por uma nova emenda constitucional que o tente dizimar. Esse cheiro impregna-me de toda a minha infância, fazendo-me lembrar os tempos em que acordava bem cedinho para ir à escola, em plena puberdade do ensino médio. Era um menino sem nenhuma malícia, salvo a do desejo sexual pelas colegas mais bonitas, o que é comum de todo jovem nessa idade. E ainda hoje quando pego o coletivo na mesma parada, sinto aquele cheirinho de peixe. Esse cheiro que exaspera muitas narinas já se tornou patrimônio cultural da minha humanidade e tenho certeza que de muitas humanidades alheias.
Sou maranhense, filho de uma mãe e de um pai, assim como do que sempre foi último no ranking das glórias, sendo somente terceiro no pódio das três colocações. Não amamento os entretenimentos, mas somente as dores do mundo de um pessimista schopenhaueriano. Quando acordo, sento-me no objetivo da leitura, contrariando a “arte do não ler” tão incitada por Nietzsche e Schopenhauer. Mas isso é após certa idade. Quando minha mãe estava gestante de oito meses, já me amava como um ser, apesar do Direito Civil assim não me considerar, já que era somente mais um nascituro. E o que isso importa às canetas do sistema bicameral federativo? O que importa é o amor que ela sentia e sente por mim.
Já tentei, ao acordar, ler jornais como todos o fazem, mas não deu certo. Nos jornais só há notícias ruins, e notícias ruins para começar o dia não é algo propício às benévolas galvanizações. Falta-lhes dizer outra coisa: na rua onde moro também mora a rua do subterfúgio e dos assaltos por viciados. Vivo a cada dia na felicidade de entender a incompreensibilidade dos homens, sem me esquecer de cumprir as obrigações sociais, sem me esquecer de fazer as demandas que sei não significarem nada à minha formação como humano, sem me esquecer que ao virar as costas falarão mal de mim, sem me esquecer dos que se interessam somente pelo o que tenho, pelo o que você tem, sem me esquecer, sobretudo, da individualidade do dia-a-dia, mas fazer o quê? Se assim não for serei rejeitado pela sociedade tão vidrada à mídia, à moda, ao trivial e ao que já foi pensado.
Nos diálogos cotidianos dialogo na técnica bocca chiusa, sem me fazer ser ouvido pelos ouvidos viciados e estuprados pelas merdas feitas arte, e o que é arte em plena contemporaneidade senão fazer merdas, senão dizer tolices, senão fazer canções que só beneficiem o corpo, onde este somente requebre e dance, ficando toda a cabeça estagnada? São as belezas do contemporâneo. E ainda há quem me pergunte o que entendo ao ouvir Mahler ou Tchaikovsky. E ainda há quem me diga...
Assistir hoje pela manhã, assim que acordei, o filme Gladiador. Estas linhas que escreverei não têm como propósito dizer como foi todo o processo do filme, mas sim o de enaltecer um trecho que me chamou muita atenção. Este diz respeito a um diálogo entre dois senadores. Irei citar somente os trechos significativos nos quais os senadores dialogam sobre o imperador:
Senador I: acha que o povo será seduzido por isso?
Senador II: acho que ele sabe o que Roma é. Roma é a plebe.
Senador II: ele fará mágica para eles ficarem distraídos.
Senador II: irar tirar a liberdade deles, mas eles o exaltarão.
Esse trecho foi o que fez-me fincar novamente os pés no chão, fazendo com que me situe onde realmente me encontro – numa capital onde os líderes ainda lideram de forma prosaica como aconteceu na Roma de outrora, naquela Roma dos gladiadores, naquela Roma onde homens eram devorados por leões, e os leões ainda nos devoram, só que de forma metafórica, embutidos no sistema social.
Há demasiadas formas de política, as politicagens, e sei nomear a nossa: Política do Pão e Circo. Aquela da antiguidade clássica onde o povo, como salienta o diálogo supracitado, distraía-se com as mágicas criadas pelos poderosos, pelos mandões, esquecendo-se assim das devidas obrigações que a estes cabiam. Hoje a nossa política retrata em todos os aspectos essa política circense e de pão. Darei exemplos:
Não sou contra os shoppings, até porque os frequento de vez em quando, mas sou contra a construção consecutiva de vários shoppings enquanto a de hospitais e de escolas não há, enquanto a moralidade do sistema educacional é baixíssima. Mas eis aí uma das mágicas que distrai a população, ou seja, eis aí a distração da plebe, esquecendo-se esta das devidas reinvidicações, das passeatas, no que me diriam certamente: pra quê? Os shoppings nos acomodam e nos distraem.
Outra especificidade do Pão e Circo contemporâneo, além dos já citados shoppings, são os sucessivos shows que por aqui há. Repito como citei no que tange aos shoppings: não sou contra os shows, até porque os frequento de vez em quando. Mas sou contra ao total investimento que é dado aos shows enquanto, reiterando, à educação e saúde investimento nenhum há. E o que é o show senão mágicas para distração? “ele fará mágica para eles ficarem distraídos”. E o que é o povo senão um financiador direto de toda essa politicagem do Pão e Circo. Mesmo com o salário mínimo que se é recebido, como bagatela que é, há milhares que os desprezam na compra de ingressos de shows, esquecendo que a criminalidade está em abundância total devido à má-educação, devido à concentração de renda, tudo isso edificando os males e a cegueira circundante. Os “chefes” nos pagam, porém com a imediata utilização de artífices tomam-nos todo o dinheiro, gerando assim um ciclo virtuoso que os beneficiem. Eles pagam os devidos salários e se utilizam dos shoppings, dos shows, dos juros, arrancando de qualquer maneira o dízimo não ofertado. Abaixo está um trecho que tirei da internet a respeito da política do Pão e Circo:
“Na Roma antiga, a escravidão na zona rural fez com que vários camponeses perdessem o emprego e migrassem. O crescimento urbano acabou gerando problemas sociais e o imperador, com medo que a população se revoltasse com a falta de emprego e exigisse melhores condições de vida, acabou criando a política “panem et circenses”, a política do pão e circo.”
O que me dizem a respeito das migrações em demasia para a grande São Paulo? Será que também foi devido à essa escravização exorbitante, ou será que foi devido à não valorização trabalhística rural: “tanto trabalho sem a remuneração devida. Tanto trabalho sob o calorento sol na esperança de um salário ínfimo. Tanto trabalho longe às salas climatizadas e rente às residências feita a barro.
E hoje, quem sai às ruas exigindo melhores condições de vida? Quem faz reclamações à falta de saneamento, à falta de uma boa educação, à falta de hospitais. Não deixem os shows e os shoppings luxuosos taparem-nos os olhos, calarem nossa fome sedenta de um melhorismo adequado.
Uma notícia que me chocou bastante foi a de saber que o povo da baixada interiorana recebia pacotes de leite para votarem no candidato que as patrocinavam. Um pacote de leite? Somente um pacote de leite para uma famíliasem renda mensal?Apenas isso? Apenas isso caros leitores. É o pão que complementa o circo. É a barriga calcando a ideologia. É a política que nos envolvem os dias. É o povo que se abstém. É o individual que espera pelo outro. Um esperando pelo outro... Um esperando pelo outro...